Especial

Ilú Obá de Min: os tambores que empoderam as mulheres

Beth Beli, fundadora do Ilú Obá de Min, conversou com o Cidade Lúdica sobre o bloco afro de tambores composto somente por mulheres

Força. Essa é a sensação ao assistir a uma apresentação do bloco Ilú Obá de Min. Mulheres, com vestimentas que representam os orixás africanos, dançam e giram e bailam à frente dos tambores. Tambores que tocam ao som das vozes de outras mulheres, igualmente fortes em presença e expressão. O ritmo é do candomblé, afoxé, jongo, maracatu, boi, ciranda.

Em yorubá, Ilú Obá de Min significa  “mãos femininas que tocam tambor para Xangô”. Atualmente, o grupo é composto por mais de 300 mulheres que atuam em diversos eventos culturais, principalmente aqueles que representam a matriz africana e afro-descendente. Nesse último carnaval, essa multidão de mulheres abriu os desfiles de blocos de rua de São Paulo, cantando, dançando e tocando seus tambores ao lado de Elza Soares.

O grupo surgiu após 20 anos de pesquisas e ações desenvolvidas pelas dirigentes Beth Beli e Adriana Aragão e, oficialmente, lançou suas atividades em 2004. Todos os anos, no segundo semestre, são abertas turmas para a entrada de novas mulheres ao bloco, que a partir daí se encontram quase todos os finais de semana para ensaiar até o Carnaval.

Para falar um pouco mais sobre o Ilú Obá de Min, o Cidade Lúdica entrevistou Beth Beli, arte-educadora, percussionista, socióloga e pesquisadora de manifestações das culturas de matrizes africanas e afro-brasileiras. Confira:

beth beli

A percussionista Beth Beli que comanda o bloco Ilú Obá de Min


Cidade Lúdica: O bloco Ilú Obá de Min é de mulheres negras?

Beth Beli: Não, é de mulheres. De uns anos pra cá, o Ilú está ficando mais preto. Hoje tem cerca de 60% de mulheres negras e 40% de mulheres brancas, o que foi uma conquista porque às vezes o negro não consegue estar no seu lugar. Agora somos maioria no Ilú, mas nem sempre foi assim. Temos uma chance de falar, de perguntar. A escravidão fez com o negro exatamente isso: o silenciamento. E esse silenciamento faz com que a gente recue. Não seremos ouvidos se não falarmos. Os espaços que achamos que só os brancos podem ir, museus e tudo mais, também temos que ir. Chegamos à conclusão que é importante a mulher branca saber como a gente acorda, tendo que matar um leão por dia, pra não virar uma coisa de gueto: vocês aí, a gente aqui. A gente não está inventando as coisas, a gente sente mesmo, então é importante que as mulheres brancas ouçam coisas que nunca ouviram. Tem mulheres brancas que já saíram chorando porque não sabiam da história verdadeira.

Eu sempre estudei a história da mulher negra por meio do navio negreiro como se essa fosse a única história. E não é.


Cidade Lúdica: E qual é a sua missão?

Beth Beli: Na verdade eu tenho o Ilú como missão mesmo, não é uma questão artística que eu ganho dinheiro com isso. Eu nasci num bairro negro, na Brasilândia, meu pai era militar, minha mãe empregada doméstica, então eu também fui sendo empoderada pelos movimentos negros. Eu sou de 68 e o movimento negro nasce nos anos 70, eu tenho essa história na minha vida e fui percebendo que o tambor me deu esse empoderamento pra poder sentar e discutir o porquê de não estarmos em uma universidade, por que a gente não estuda nas melhores escolas, por que a gente sempre está no lugar de servir, por que que a gente não é o empresário. Então fui indo atrás dos porquês. E eu fui sendo empoderada pela arte, o meu caminho é a arte e os movimentos negros que fui participando.


Cidade Lúdica: E sua formação?

Beth Beli: Eu me formei em sociologia com 40 anos, então a minha primeira formação foi em arte mesmo. Uma hora caiu a minha ficha: sou presidente do Ilú Obá, sou a fundadora do Ilú e tenho que ter uma formação. Então em vez de estudar música fui estudar sociologia, que iria me dar as ferramentas de manipulação. Quando você começa a ouvir a história real, você vê: nossa, então é assim que se faz, tanto na política, quanto na economia. A base econômica do Brasil é feita pela escravidão, pela mão escrava, dos escravizados. Então, se o poder econômico do Brasil foi constituído através da escravidão, então cadê a nossa parte? Inclusive na minha monografia eu falo disso: cadê a nossa parte? Eu fiquei quase 40 anos só no ativismo, sem academia nenhuma e quando eu fui para a academia foi muito mais interessante porque daí eu tinha muito mais opinião e vivência. Eu não estava só para ouvir, aliás eu causava nas salas de aula.


Cidade Lúdica: O Ilú tem um projeto que se chama Ilú Pedala. O que é?

Beth Beli: É um circuito cultural afro pedalado. A gente sai pelo centro conhecendo os lugares de cultura negra. Por exemplo, o Memorial da América Latina era o reduto do samba, em Santa Cecília também tem uma forte base do samba e depois a República, andando e contando a história onde acontecia o movimento negro.

Tem também um projeto do Ilú que se chama Ilú na Mesa que é um projeto que tenta trazer uma mulher da academia para falar de um mesmo tema que estejamos trabalhando, para a academia poder ouvir a gente que trabalha com a cultura da oralidade, porque cantar em orubá traz uma base que não é acadêmica, é uma base só de vivência e tradição e como isso é tão importante para a educação. Se eu vou falar numa escola de ricos é importante eles saberem nossa história e não pensarem que somos só tambor. É uma parte educacional, exposições educativas e interativas, para falarmos das contribuições que trouxemos para a nossa cultura.  E é importante lembrar que falar do continente africano são muitas Áfricas, porque o Brasil sempre foi contado em cima da mentira, ainda tem muito ranço e precisamos falar disso para habitarmos um lugar mais generoso e mais igualitário.

 

Mazé Cintra, diretora musical do bloco afro Ilú Obá De Min, participa do evento Nós A Cidade, promovido pelo Cidade Lúdica, que acontece no dia 11 de junho (sábado). Ela compõe a mesa “Mulheres e a Cidade: as mulheres como protagonistas dos movimentos sociais em São Paulo”, às 14h, na Unibes Cultural. Mais informações sobre o evento clicando aqui: http://bit.ly/NosACidade

 

(Foto de capa: Arô Ribeiro)

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