Especial

Quando pessoas inquietas criam projetos inspiradores para a cidade

A equipe da Refúgios Urbanos não se contentou em ser uma imobiliária-conceito. Seu time de corretores são pessoas apaixonadas pelo urbano e engajadas em transformar a relação que temos com São Paulo

Não sei você, mas por aqui vivo esbarrando em pessoas que não vivem suas vidas apenas para seu trabalho, sua casa e seu próprio lazer. São pessoas que usam parte do seu tempo para criar projetos que amam e nos quais acreditam. Principalmente, projetos que se tornam bem comum. Com o próprio Cidade  Lúdica não é diferente: cada um de nós têm nossas suas rotinas e trabalhos, mas também focamos nossas energias para fortalecer aqueles que, assim como nós, querem construir uma melhor relação com a cidade.

O mesmo acontece com a equipe da Refúgios Urbanos. Poderia ser somente uma imobiliária que trabalha com uma curadoria aguçada de imóveis e, como o próprio nome diz, um olhar atento para encontrar um lar pra “fugir sem fugir” do caos da cidade.  O conceito por si só já é diferente,  e a rotina dos seus corretores poderia ser apenas a de descobrir imóveis com a cara dos clientes. Sim, poderia, mas eles não param por aí: suas vidas profissionais e pessoais se misturam em projetos que têm como foco a paixão que todos sentem pela cidade.

Foto do escritório da Refúgios Urbanos, localizado em um prédio de 1927
Foto do escritório da Refúgios Urbanos, localizado em um prédio de 1927. Créditos: Divulgação.

Matteo Gavazzi, Octavio Pontedura e Felipe Grifoni são os corretores da Refúgios Urbanos. Acima de tudo,  são pessoas que caminham – no sentido mais amplo da palavra – pela cidade, com olhares atentos e uma admiração profunda pela arquitetura paulistana.  No caminhar, olham para cima, olham para os lados, percebem os detalhes naqueles prédios antigos, desvendam histórias escondidas. A partir dessa relação, criam e compartilham projetos que nos permite redescobrir a cidade e consequentemente transformam a nossa relação com São Paulo.

Essa história toda teve início com um projeto muito conhecido: o Prédios de São Paulo.

 

As histórias ocultas por trás de grandes prédios

Se existe algo que está na minha lista de “coisas legais para fazer por SP” é andar pela cidade, principalmente pelo Centro, com o livro do Prédios de São Paulo a tiracolo, para ver todos aquelas construções com outra olhar e entender a sua história.

A obra traz fotos, informações contextualizadas e curiosidades de mais de 40 prédios e já está em sua segunda edição. Ambas edições foram feitas a partir de financiamento coletivo: no total, alcançaram a arrecadação de R$ 250 mil, três vezes mais que a meta proposta. Ou seja, as pessoas realmente estavam interessadas em conhecer essas histórias: parece óbvio, mas há dois anos, quando Matteo Gavazzi, teve a ideia de reunir este material em um website com mais de 100 prédios e deixar essa pesquisa disponível gratuitamente para a população, muitos o questionaram “o que você vai ganhar? Quem vai ler isso?”.

“Eu sempre respondia: ‘eu, oras!’ E deve ter outra pessoa que assim como eu se interessa. E eu sabia que as pessoas tinham curiosidade em conhecer mais a histórias desses prédios”. Italiano residente no Brasil desde 2010, e uma pessoa que pelas palavras do colega Felipe Grifoni “não aceita um ‘não’ como resposta”, dá para entender porque a seu projeto deu certo: tanto pelo interesse público mas principalmente por sua persistência em criar um material de qualidade.

Quando chegou ao Brasil, deixando para trás uma faculdade de Ciências Políticas e buscando melhores condições de trabalho, nem ele imaginaria que acabaria trabalhando como empreiteiro, cursando Design de Interiores e investindo em prédios antigos – até criar a Refúgios Urbanos, no final de 2012.

Matteo Gavazzi
Matteo Gavazzi, fundador da Refúgios Urbanos e autor do Prédios de São Paulo. Ao fundo, fotos da obra. Foto: acervo pessoal.

Tudo começou pela facilidade em gerenciar reformas em residências  – fruto de alguém acostumado a mudanças e a viver em diversas casas, desde a infância, por causa das profissões de seus pais. Do trabalho como empreiteiro a investimento em compra, reforma e venda de apartamentos antigos foi um pulo. “São Paulo tem uma arquitetura muito interessante que deve ser reconhecida e valorizada. Sempre foi claro para mim que os imóveis novos não tinham a qualidade dos antigos. E eu quis me aprofundar mais na histórias desses lugares”. Nesse contexto, surge o conceito da Refúgios Urbanos e posteriormente o projeto Prédios de São Paulo. Agora tudo faz muito sentido, não?!

Desse projeto, já nasceram outros como revitalizações de espaços públicos (leia ao final dessa matéria) e o livro “Casas de São Paulo” – esse último com o parceiro de equipe Felipe Grifoni.

 

“Lá você é um parafuso solto; por isso você precisa vir para São Paulo”
Foi essa frase que impulsionou Felipe Griffoni, 24 anos, a sair de Araraquara, interior de São Paulo, abandonar o curso de Arquitetura e um trabalho estável para aventurar-se por terras paulistanas.

Felipe Grifoni
Felipe Grifoni, na abertura da mostra “Edifício Planalto: Edifício Planalto: 60 anos de cor em São Paulo”. Acervo Pessoal.

O conselho veio de Cida Santana, do antiquário Passado Composto, eleito um dos melhores de São Paulo. Aqui começou a trabalhar como corretor de imóveis e conheceu o projeto Prédios de São Paulo, pelo qual se apaixonou logo de cara “antes mesmo de ter Facebook”, lembra Felipe, já que a fanpage do projeto com mais de 33 mil fãs era o principal meio de divulgação. Foi a partir do Prédios que surgiu o contato com Matteo e a oportunidade de trabalhar na Refúgios Urbanos, em maio de 2015.

O Casas de São Paulo, que está em construção, irá trazer além de fotos e contexto histórico, detalhes técnicos do projeto de cada casa, já que arquitetura é sua especialidade! Felipe é outro apaixonado pela cidade e abusa de seu olhar técnico e sua criatividade não apenas como corretor mas na concepção de diferentes projetos.

É dele a criação e a curadoria da mostra “Edifício Planalto: 60 anos de cor em São Paulo”, que vai até dia 03 de setembro, no hall do Edifício Planalto – prédio que teve seu projeto criado por Artacho Jurado.

A exposição apresenta desde os desenhos iniciais do prédio e fotografias antigas do acervo da família do arquiteto, incluindo imagens cedidas por moradores e colaboradores, fotografias profissionais e móveis desenhados por ele. O objetivo é mostrar importância do edifício para a cidade de São Paulo, ícone da expansão do centro antigo (saiba mais clicando aqui).

 

Os projetos desenvolvidos por Matteo e por Felipe têm um ponto em comum: aguçar nosso olhar para a arquitetura de São Paulo e valorizar esses lugares como obras de arte cheios de história. Mas e Octavio, citado no início da reportagem, onde entra? Além de sua paixão pela arquitetura, ele tem uma ligação com a cidade que passa diretamente pela sua relação com Piná, sua melhor amiga e companheira diária de belos passeios pela cidade.

 

A paixão por cães na relação com a cidade
Octavio Pontedura, 46 anos, é engenheiro civil. Já trabalhou em grandes corporações – onde também viveu o lado mais perverso e competitivo dessas empresas – e depois entrou na vida de corretor, pois mesmo engenheiro trabalhou durante anos na área comercial. Assim como Felipe, conheceu Matteo por meio do Prédios de São e em agosto de 2015 começou a trabalhar na Refúgios Urbanos.

Como morador da região do Minhocão, sempre levava Piná para longos passeios à noite, quando a região abre exclusivamente para pedestres. Na rampa do largo Santa Cecília encontrava mais pessoas passeando com seus cães: juntas elas criaram o movimento Minhocães. “Sabe aquele lance de cidade pequena onde você vai para a praça para encontrar os amigos? Enquanto os cachorros brincam, nós ficamos batendo papo. Fiz amigos e conheci vizinhos que jamais conheceria se não fosse o Minhocães”.

Mas Octavio mora no outro extremo do elevado e precisava precisava caminhar quase dois quilômetros com a Pina para chegar até o ponto de encontro. Para evitar o cansaço de ambos, teve a ideia de criar o Minhocães Lado B, na altura da avenida Pacaembu, e lá formou um novo grupo de amigos que não só levam seus cachorros para passear mas discutem a cidade.

“As pessoas estão começando a entender que a cidade é algo completo, e não somente sua casa, ou apenas o caminho de sua casa ao trabalho – como se o restante não tivesse a ver com elas. Você faz parte da cidade, você é agente da cidade, e ela tem reação sobre você e vice-versa. Voltar para a rua é bacana pois começamos a perceber isso novamente, além de ser um espaço democrático e gratuito”.

Octavio Pontedura, com Piná, no Minhocão. Acervo Pessoal.
Nós e a Cidade
Como agentes da cidade, a equipe da Refúgios Urbanos têm mais um projeto relacionado a São Paulo, redescoberta de antigos espaços e…cães – ou seja, uniu a paixão dos três parceiros!

Por isso, o próximo passo é revitalizar a praça 14 Bis, na Bela Vista, e implementar o Parcão junto com a população e as arquitetas do Acupuntura Urbana – que fazem um trabalho incrível de revitalização de espaços públicos integrando a comunidade local (saiba mais clicando aqui).

“Já fizemos uma pesquisa e propomos um financiamento coletivo, começando com os moradores locais. As pessoas vão colocar a mão na massa e, assim, se tornam agentes transformadores a partir de uma paixão comum: a relação com seus cães”, explica Pedro Vicari Bertolucci, estudante de Administração Pública e assessor de projetos culturais na Refúgios Urbanos. Atualmente, a equipe está buscando parceiros e resolvendo os últimos trâmites burocráticos, mas o Parcão deve sair do papel em setembro.

Nesse sentido, voltamos a abordar o pensamento que o Octavio falou acima: somos agentes da cidade, e ela tem reação em nós, assim como nós reagimos sobre ela. Cada vez mais há pessoas, grupos e coletivos que criam trabalhos e projetos inspiradores em relação à cidade e a ocupação de ruas e espaços públicos. Só na cidade de São Paulo, o Cidade Lúdica já mapeou mais de 200 projetos e coletivos que realizam ações ligadas à cidade.

Matteo acrescenta, em uma reflexão muito crítica e certeira. “Acho que as pessoas acordaram da doença de ficarem presas em shoppings ou no carro. E a crise chega nesse momento em que você não tem dinheiro para gastar e busca opções baratas ou gratuitas. Um exemplo: a pessoa mora em Higienópolis e pegava seu carro para ir até o Ibirapuera, pagar estacionamento, comprar uma água de coco etc. Só aí já gastava uns R$ 50. Mas se você descer até o Minhocão, vai dar de cara com um espetáculo do Esparrama na Janela, o pessoal fazendo Yoga – tudo gratuito! Como diz Jane Jacobs (autora do consagrado livro Morte e Vida das Grandes Cidades), a questão de segurança é promovida para que você gaste dinheiro. Se você passear num shopping, que aparentemente é um local seguro, você vai gastar dinheiro. É um plano econômico doentio de sempre precisar gastar para ter lazer”.

Durante a entrevista, fomos unânimes em concordar que vemos em São Paulo um movimento cada vez maior de pessoas nas ruas, saindo dos enclausuramentos de condomínios e shoppings, e ocupando de maneira criativa os espaços públicos. Temos muito ainda o que caminhar: mas enquanto houver pessoas, coletivos ou empresas, que como a equipe da Refúgios Urbanos, desenvolvem ações para o bem comum, criaremos uma rede cada vez mais forte e inspiradora para construir a cidade que queremos.

 

(Foto de Capa: Sheila Calgaro)

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