Especial

Arsenal da Esperança acolhe pessoas em situação de rua na Mooca

Alô alô Marciano: aqui quem fala é da Terra e, pra variar, estamos em guerra. Uma luta feroz da qual temos soldados de todas as etnias, crenças religiosas e dos mais variados estilos de vida. O inimigo, “ninguém” menos que a miséria.

Sei que essa guerra é evidente, mas por tantas vezes o calor dos nossos edredons e a constante presença de comida em nossas louças nos faz esquecer da brutalidade desse confronto.

Foi o carismático Marco Vitale – italiano de sorriso fácil e rosto sereno – que me permitiu arejar meu entendimento, tão abafado por carpetes e vidros espelhados, sobre o assunto. E isso foi outro dia, quando menos esperava, na Horta Comunitária das Flores, localizada na Mooca. Foi lá que Marco se apresentou e subitamente me convidou para conhecer o projeto que participava.

No dia em que fui conhecer o tal projeto, na rua Dr. Almeida Lima, 900, arredores da estação Bresser do metrô, pude ver um muro e portão, enormes, e ao bater e entrar, percebi que lá são os fundos do Museu do Imigrante. Meu anfitrião, Marco, me explicou que lá se trata do local onde o Arsenal da Esperança em São Paulo atua. Uma organização, oriunda de Turin, na Itália, e que também gere ações no Oriente Médio.

O local onde fica o Arsenal da Esperança (Foto: Reprodução / Facebook)
O local onde fica o Arsenal da Esperança (Foto: Reprodução / Facebook)

Árvores, chão de pedra, um lugar onde parece que o tempo passa em uma velocidade diferente, em uma velocidade mais gostosa. Entendi que aquele é um local que acolhe pessoas em situação de rua.

Então Marco me mostrou um galpão com uma centena de camas, fiquei boquiaberto com a grandeza daquilo. Meu anfitrião ponderou: “esse é apenas um dormitório, temos nove desses, acolhemos 1200 pessoas todos os dias aqui. O pessoal está jantando agora, vamos lá ver?”.

No refeitório pude ver que, realmente, a casa acolhe “quatro dígitos” de pessoas. Comida de qualidade, balanceada, feita com apoio de nutricionistas, em uma cozinha industrial gigantesca e bem equipada. Depois do almoço, as pessoas que lá estavam iam para um outro espaço assistir um enorme projetor. Quase um cinema. Meu anfitrião me explicou que fica feliz pelas pessoas irem para diante da tela, mas fica mais contente quando eles vão para a biblioteca.

A biblioteca do Arsenal da Esperaança, no horário pós-jantar, é frequentada por dezenas de pessoas que por lá dormem. Impossível não ver poesia nos rostos que por lá viajam por meio de páginas. Fiquei particularmente encantado por um senhor que lia A Moreninha – degustava a obra sorrindo. Poucas coisas são tão belas como um sorriso de paz.

No posto de saúde do Arsenal, dois médicos atendiam alguns pacientes. “Temos parceria com o hospital local. Aqui eles têm de tudo: remédios e atendimento. Algumas pessoas com dependência química chegam aqui e tudo que elas precisam são de dentes novos” – disse Marco. Foi na enorme lavanderia da casa que eu não consegui mais esconder minha estupefação pelo projeto.

– Vocês dão até roupa lavada para as pessoas?

– Só a primeira lavagem, depois eles têm que pagar com isso – mostrando um papelzinho, a moeda social da casa.

Tal moeda funciona para as pessoas que lá estão começarem a se preparar para um dia saírem do Arsenal. Proporciona um entendimento sobre a economia do “mundo real”. No Arsenal da Esperança, uma latinha vale uma moeda que pode ser usada na lavanderia ou então no bazar local – onde as mercadorias são doações.

Depois de conhecer o Arsenal, sentei com o Marco numa pracinha. Ele me explicou que o seu maior desafio não é proporcionar lar e comida para aquelas pessoas. Inúmeras delas já saíram de lá “recuperadas”, prontas para “voltarem ao mundão”, só que em pouco tempo caíram nas mesmas armadilhas de antes – álcool, jogo, drogas e tantas outras.

Para ele, o maior dos desafios é criar para essas pessoas um sentido para a vida. Que por lá fazem algumas ações internas – como cursos de padeiro, por exemplo – e também conectam os acolhidos a projetos sociais. Lembram que conheci Marco em uma horta comunitária?

E naquela praça ele comentava sobre inúmeras formas de dar sentido para a vida das pessoas. Comentava como um estrategista de guerra buscando novas trincheiras. Em Turin, o projeto ganhou esse nome por ser sediado no local de um antigo arsenal. Eles entenderam que a guerra só acaba com outros tipos de armas, como o Marco me falava sorrindo: “a paz só é paz quando é paz para todos”. Sim, quando a paz é para todos…

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