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Em BH, moradores resistem e lutam para criar o Parque Jardim América

“É difícil falar de uma luta sem falar da vida da gente. Somos de uma geração na casa dos quarenta. Ao passearmos pela cidade, víamos a efervescência dos coletivos, mas víamos à distância. Paralelamente, somos do Jardim América e acompanhamos a questão de não desmatarem a última área verde do nosso bairro”. As frases foram ditas para mim pelo carismático Zé Flávio, um dos responsáveis pelo movimento de criação do Parque Jardim América.

Zé, ao lado de seus companheiros de luta — Humberto Oliveira, Viviane Delmaschioe e André Oliveira —, narrava o início e o desenrolar da batalha no Jardim América, em Belo Horizonte (MG). Suas narrativas eram únicas, porém com algo absolutamente familiar.

O Jardim América, a única área repleta de árvores do bairro, está sendo ameaçada por um projeto de construção de um condomínio.

Ativistas lutam pela criação do parque (Crédito: Reprodução / Facebook)
Ativistas lutam pela criação do parque (Crédito: Reprodução / Facebook)

A intenção de uma construtora destruir a última área verde de uma região para a implantação de uma “bolha gourmet” já é, infelizmente, um movimento conhecido em vários lugares do mundo. Não tem como não comparar o engajamento das pessoas do Jardim América ao caso do Resiste Estelita, no Recife, ou as dimensões da área verde em questão – 21.528 metros quadrados – ao paulistano caso do Parque Augusta.

Tudo começou em 2012. Por uma questão de herança, essa área passou a ser ameaçada para se transformar em um empreendimento e, diante disso, quatro pessoas da região tocaram um abaixo-assinado em prol da preservação do espaço. Paralelamente também foi movida uma ação civil pública – que a construtora MASB já tentou derrubar duas vezes sem sucesso.

Ações em prol do parque (Crédito: Reprodução / Facebook)
Ações em prol do parque (Crédito: Reprodução / Facebook)

Enquanto o quarteto me contava detalhes sobre as frentes de batalha que o coletivo do Parque Jardim América travava, André fez uma ponderação absolutamente pertinente: explicou que quando tudo isso começou, Belo Horizonte vivia um clima de mudança. A realização de eventos na Praça da Estação já ficava fortíssima e os blocos de carnaval começavam a se perpetuar pela cidade. “Nós íamos nesses lugares e divulgávamos nossa causa. Blocos como o Pena de Pavão de Krishna ajudaram a difundir”, comentou.

A luta pela criação do Parque Jardim América se tornou semiótica. Moradores da região começaram a ocupar as ruas ao redor da área. Passaram a fazer piqueniques, exposições, bicicletadas, trocas de livros, espetáculos, mutirões de limpeza e até mesmo carnaval. Hoje, o movimento esbanja vida e força.

O Zé e seus companheiros, que em 2012 não participavam de coletivos, começaram a se apropriar de mais causas, além do Parque Jardim América. Hoje eles também são integrantes da Gaymada –  que ocupa o espaço público e fortalece causas LGBTT  – e parece que não apenas eles se empoderaram: o número de pessoas que apoia a criação do parque cresce a cada ação.

A Viviane explicou que no começo do movimento, não eram poucos que questionavam: “mas vão criar um parque pra ser ponto drogas?”. Com o tempo e as ações do coletivo, muitos começaram a entender que parques existem para serem ocupados. Nada como uma boa causa para a expansão do entendimento humano.

De fato, existem muitas questões técnicas sobre a criação do Parque. Para isso, o site Natureza Urbana não poupou informações e gráficos sobre o assunto. Veja no player abaixo:

A criação do Parque Jardim América não se tornou uma preocupação de quem é apenas do bairro. Vivemos tempos em que, no meio do cinza, brigamos com unhas e dentes pelos últimos clarões verdejantes. Entre sambadas e petições, o sentimento sempre aparece de uma única forma: resistindo. E assim vemos uma efervescência desabrochar.

Acompanhe as novidades do Parque Jardim América na página oficial do movimento no Facebook.

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