Especial

Fast Food da Política: quando jogos decodificam o sistema político brasileiro

O Fast Food da Política promove jogos rápidos e divertidos em espaços públicos da cidade – mas também levanta a importância de discutir a equidade de gênero na política

Existia uma prática nos presídios brasileiros em que a mulher permanecia algemada durante o trabalho de parto. Imagine o absurdo da cena e responda: quando você acha que isso foi proibido no Brasil?

Pasme… foi este ano! Sim, somente em 2016 algo tão arcaico foi proibido – por lei. Por que só agora? Se você pensar que  mais da metade da população brasileira é composta por mulheres, mas 80% dos cargos eletivos são ocupados por homens, você entende como a falta de figuras femininas na política brasileira afeta decisões que realmente representem nossas necessidades como mulheres na sociedade.

Precisamos sim falar sobre equidade de gênero na política;  precisamos sim de mais mulheres ocupando cargos políticos e vai ter mulher falando sobre política SIM! Para esta reportagem especial ao Cidade Lúdica, teremos não só a repórter que aqui vos fala (onde atuarei como interlocutora dessa história) mas duas mulheres que decifram os códigos da política brasileira e promovem ações para facilitar sua compreensão: Júlia Fernandes de Carvalho, 22 anos, designer e Conselheira Participativa Municipal; e Bárbara Côrtes, 24 anos, socióloga e dançarina profissional.

Ambas fazem parte do Fast Food da Política, organização que propõe abertura de código do sistema político brasileiro e suas inúmeras criptografias através da gamificação, com jogos rápidos, acessíveis, divertidos e aplicáveis para qualquer faixa etária.

Friso o “qualquer faixa etária” porque, ao contrário do que você imagina, os jogos foram criados principalmente para o público adulto: afinal, tem muita gente grande que não entende o sistema político brasileiro. Como disse Júlia durante vários momentos da entrevista, quando realmente entramos nos melindres da política você percebe que “ninguém sabe nada”.

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Júlia Fernandes de Carvalho e Bárbara Côrtes, do Fast Food da Política

HACKERS DO PAPELÃO
No ano passado, Julia viajou com o Ônibus Hacker,  laboratório móvel gerido por ativistas que atuam nas intersecções entre tecnologia e política, cultura e artes. O grupo estava chegando em Brasília, bem no momento em que aconteceria uma grande manifestação pró-impeachment.

“Será que quando as pessoas estão nervosas ainda conseguimos dialogar e aprofundar conceitos políticos?”. Esta foi a inquietação para Júlia plantar a primeira semente do  Fast Food da Política e colocar o projeto em seu maior momento de teste. Nem precisa dizer que o resultado foi incrível: ali nascia um jogo rápido e divertido, que poderia ser inserido no contexto de manifestações e movimentos sociais, em praças, ruas, escolas, metrôs e outros espaços públicos.

“Era possível ter uma conversa refinada, mesmo em meio a uma manifestação. Vimos que o jogo é uma ferramenta valiosa para tentar falar sobre algo que parece impossível discutir. Nosso cuidado é mastigar algumas regras da política de forma diferente, para que as pessoas percebam que estudar o sistema político brasileiro é necessário e pode ser divertido”, lembra Júlia.

De lá para cá muitos outros jogos foram criados, inúmeras ações foram realizadas em lugares públicos e até mesmo uma plataforma online foi disponibilizada para que qualquer pessoa possa baixar e montar seus próprios jogos. Mas o sucesso da organização é sua presença na “vida real” e principalmente a reação espontânea das pessoas ao participarem dos jogos.

 “Somos hackers do papelão! E uma das coisas mais notáveis quando estamos aplicando os jogos com alguém são os elementos da presença, da surpresa e da vergonha: é isso que garante o sucesso do jogo. É ver as pessoas se perguntarem ‘nossa, isso é muito básico, preciso aprender!”, destaca Júlia.

Certamente, a maioria das pessoas que participa dos jogos se depara com esta “vergonha” ao ver que pouco sabe sobre a política brasileira. Seja ocupando o cargo de um candidato político em uma simulação de debate eleitoral, seja jogando o “Três Poderes” – onde você precisa ter conhecimento sobre a divisão de cargos e órgãos – ou em qualquer outro jogo do Fast Food é fácil perceber desconhecimento geral sobre o tema.

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O irônico é que nunca antes na história deste País se discutiu tanto assuntos relacionados à política. “Agora é o momento de construirmos algo muito incrível que vai mudar tudo ou será o momento da banalização e de informações mais midiatizadas”, prevê Júlia.

Bárbara complementa: “Infelizmente ainda vemos uma reprodução passiva: como se a participação na política fosse uma coisa altamente moral ou emocional, mais que pensada”. É nesse contexto que entra o esforço em aplicar o Fast Food da Política não apenas em espaços públicos ou em escolas, mas torná-lo um instrumento de formação para professores, educadores e cidadãos em geral.

O trabalho para consolidar a organização vem das mãos não somente de Júlia ou Bárbara mas de um coletivo formado por seis mulheres. Nesse sentido, o Fast Food se transformou em uma ferramenta poderosa para discussão de gênero.


MOLHO ESPECIAL
É justamente aqui que entra a história contada no início desta reportagem. A pergunta sobre a lei que proíbe a mulher de ser algemada durante o trabalho de parto promulgada somente este ano é uma das questões do jogo “Direitos e Silêncios”: uma linha do tempo com peças que representam conquistas em relação à equidade de gênero.

O jogo faz parte do Molho Especial, núcleo de gênero dentro do Fast Food da Política, que conta ainda com os jogos Queda do Patriarcado, Jogo das Vozes, Quem Falou e Mulheres no Poder. Para ganhar seu primeiro impulso o Molho Especial está em processo de financiamento coletivo e recebe doações até o dia 4 de dezembro (saiba como apoiar acessando este link).

A composição do coletivo em um grupo de seis mulheres foi algo que aconteceu naturalmente por afinidade. Mesmo com a organização consolidada, elas ainda precisam lutar contra a barreira em ter a atuação de mulheres na criação de jogos e na discussão sobre política.

“Por ser uma organização composta somente por mulheres, muitas pessoas vinculam o Fast Food a jogos e crianças. Mas estamos falando de termos e temáticas altamente detalhados e os jogos são uma linguagem extremamente complexa. Mesmo já tendo a nossa voz, as pessoas ainda lançam um olhar de infantilização e subestimação. Não precisamos falar ‘é proibida a entrada de homens’. Mas enquanto a realidade social baseia-se na distinção de gênero, infelizmente, os homens não acessam e o trabalho acaba sendo feito entre nós”, explica Bárbara, que se uniu à organização no início deste ano e impulsionou o Molho Especial.

A conversa com Bárbara e Julia, naquela manhã de sexta-feira na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, ia longe se elas não tivessem outro compromisso, impossibilitando que continuássemos a entrevista. Certamente, passaríamos mais horas conversando e sairíamos desta discussão com muito mais trabalho pela frente. Enquanto a equidade de gênero não for algo real – e natural -, ainda resta alguma dúvida a você, caro leitor ou leitora, sobre a importância de termos mais mulheres na política?

#VidaLongaFastFoodDaPolitica

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