Especial

“As cidades são o palco do Carnaval”, diz Mauro Calliari

Reportagem especial com o autor do livro “Espaço Público e Urbanidade em São Paulo”, lançado há três meses

Mauro Calliari é um especialista na relação da cidade com seus espaços públicos. É também administrador de empresas e mestre em urbanismo. O livro de sua autoria, “Espaço Público e Urbanidade em São Paulo”, aborda questões importantes das metrópoles, como a importância dos espaços públicos e a relação histórica de São Paulo com esses espaços.

mauro calliari
Especialista em Espaços Públicos, Mauro Calliari

 

Calliari, que acredita que a cidade pode ser melhor explorada a pé, escreve o blog Caminhadas Urbanas, sobre sentir a cidade a partir do ponto de vista da experiência sensorial.

Em entrevista exclusiva ao Cidade Lúdica, Calliari fala sobre o Carnaval de São Paulo e a retomada dos blocos de rua na cidade. Segundo informações da Secretaria da Cultura, serão 413 blocos desfilando pelas ruas da capital neste ano. Em 2016, foram 306 desfiles.

Cidade Lúdica: O que é uma cidade lúdica para você?

Calliari: Interessante esse conceito de cidade lúdica. No urbanismo, não há tanta referência sobre esse conceito, mas, para mim, cidade lúdica remete a uma cidade “bem-humorada”.

Uma cidade que permite que as pessoas se sintam bem no espaço público, que abre possibilidades de encontros inesperados, de surpresas. Um largo onde só havia ruas, uma vitrine bonita em meio a muros, uma praça com árvores que se insinua na paisagem urbana.

O conceito também me remete a uma boa experiência sensorial de estar na cidade: calçadas agradáveis, árvores, bancos para sentar, pessoas para ver, trabalhos interessantes para fazer.

mauro livro
O livro recém lançado em São Paulo

CL: Houve mudanças significativas no brincar do Carnaval ao longo dos últimos 20 anos. Você conseguiria esboçar essas mudanças? A que seriam devidas?

Calliari: O Carnaval nunca é igual, está sempre mudando. No século XIX, em São Paulo, havia o entrudo, uma brincadeira em que as pessoas jogavam bolas de cera com perfume umas nas outras. A brincadeira foi proibida. Depois vieram os blocos, o corso – o desfile em automóveis das décadas de 1910/20 – as escolas de samba, os desfiles. Esse vai e vem parece ser uma constante na relação da cidade com essas atividades fora do cotidiano.

No final do século, XX, o Carnaval estava quase proscrito de São Paulo. Paulistanos que gostavam de Carnaval iam à Bahia, ao Rio, Florianópolis, ao interior. Festa em São Paulo, só nos clubes, um ou outro bloco e o Sambódromo. As ruas ficavam vazias.

Nos últimos anos, a cidade mudou, as pessoas mudaram. Os blocos, que nunca haviam deixado de existir, mas eram bem pequenos, foram retomando as ruas até que, nos últimos anos, começassem a atrair mais e mais gente.

CL: No que as cidades podem contribuir para uma boa brincadeira de Carnaval?

Calliari: As cidades são o palco da festa. Mas também são personagens dela. É claro que a vista de uma praia bonita ajuda. Mas, o Carnaval é democrático e se instala em qualquer lugar. Basta oferecer uma infraestrutura de segurança e reservar espaços interessantes que as pessoas virão.

O centro histórico de qualquer cidade é sempre atrativo, seja em Recife, São Luiz do Paraitinga ou São Paulo.

carnaval paulista 2017
Carnaval de 2017 na Avenida Paulista


CL: O número de pessoas que fica na cidade durante o Carnaval é muito grande. A que você atribui isso? Pode discorrer um pouco sobre o “indivíduo” misturado às multidões dos blocos e desfiles?

Calliari: Eu acho que as coisas que acontecem em outra cidade ganham uma dimensão particular em São Paulo: as multidões. Tudo aqui se torna mais difícil de lidar pela simples escala do problema. Grandes eventos aqui – jogos de futebol, eventos religiosos, manifestações – sempre exigem atenção à logística e demandam organização.

No Carnaval, se temos um bloco pequeno na rua, com alguns instrumentos e amigos, tudo está bem. Não há percalços logísticos. Mas com blocos de 80 a 100 mil pessoas, tudo muda de figura. A multidão bebe, a multidão faz xixi, a multidão se locomove. Cada coisa dessas exige soluções: cadastramento de vendedores, banheiros químicos, grades, policiamento e esquemas especiais de transporte.

Tudo isso faz a gente esquecer que, no meio da multidão, estão as pessoas. E cada um tem uma motivação.  Há os que vão com filhos, há os que vão em grupos, há os que vão azarar e, há, infelizmente, os que vão aproveitar uma rara liberdade na cidade e se envolvem em brigas.

Gosto muito da cidade quando a multidão se dispersa. É a hora em que a gente começa a notar as pessoas. É a hora de sentar na calçada, de encontrar um bar e relaxar, olhar o movimento. Em uma de suas crônicas, Nelson Rodrigues conta que entrou no Maracanã lotado e percebeu que a multidão era azul. Pois é isso, a massa azul esconde os indivíduos, que tem cores diferentes entre si e que fazem coisas diferentes quando acaba o rito coletivo.

CL: São Paulo era feita para “trabalhar” e não para se divertir. Podemos dizer que, com os blocos carnavalescos, houve uma apropriação dos espaços públicos?

Calliari: Acho que o Carnaval é uma das várias manifestações do novo “espírito do tempo” na cidade. Várias formas de apropriação do espaço público em São Paulo estão aparecendo ao mesmo tempo.

As pessoas estão nas ruas. Os parques e praças estão lotados. Bares com mesas na calçada estão cheios. Há movimentos de pedestres e de ciclistas. Todo domingo, pessoas se encontram na Paulista e outras ruas fechadas para os carros. Eventos reúnem multidões, da Parada Gay à Virada Cultural. O centro voltou a ter aumento de população e de movimento durante a semana e o fim de semana. O Carnaval é um pedaço dessa história.

CL: Sobre o Carnaval de São Paulo e a possibilidade de multirracialidade: quais as dificuldades de um Carnaval de rua mais democrático, sendo que os blocos acabam se concentrando no quadrilátero Centro-Zona Oeste?

Calliari: Interessante esse fenômeno da concentração. Eu também acho que o Carnaval pode ser mais espalhado. As pessoas tendem a ir a lugares que já conhecem. É comum alguém que mora nas cidades ao redor de São Paulo pensar em vir à Vila Madalena num fim de semana. Com o Carnaval acontece a mesma coisa. Por que não estimular o Carnaval em Osasco, em Santo André, em Guarulhos? Cada cidade, cada bairro pode ter seus blocos e assim, reduzir um pouco o efeito da concentração e os malefícios da multidão.

CL: Qual o balanço que você faz deste Carnaval de 2017 em São Paulo? E o que esperar para os próximos Carnavais na cidade?

Calliari: A cidade fica linda quando há um pouco de música e pessoas na rua. Espero que a gente consiga chegar num equilíbrio entre o prazer dos foliões e o direito ao descanso de moradores.

Dá para conciliar, é preciso pensar em instrumentos inteligentes e democráticos e mediar esse debate. A melhor parte do Carnaval é andar nas ruas da cidade, sem carros, com gente fantasiada e feliz.

 

Créditos: Mauro Calliari (foto de capa, adaptada por CL)

Comentários (0)

Deixe um comentário

Seu email não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com um *

Cidade Lúdica

2016 Cidade Lúdica