Especial

UMA: quando as mulheres protagonizam o Hip Hop

Coletivo feminino de danças urbanas discute e fortalece a presença da mulher na cultura Hip Hop de Belo Horizonte

Estavam todas sentadas em uma roda para compartilhar suas experiências e sensações após uma aula de quase duas horas de Hip Hop Dance. Em uma turma composta quase que em sua totalidade por mulheres de diferentes idades, um dos poucos homens ali presentes abriu a conversa para contar como se sentiu.

“Assim que entrei aqui e vi tantas mulheres, fiquei intimidado. Não estamos acostumados a ser ‘minoria’, e acho que consegui entender um pouco como a mulher se sente quando está em um espaço dominado por homens”.

Logo em seguida, uma outra mulher, aparentando 30 e poucos anos, começa a dar seu depoimento com olhos marejados. “Eu sempre amei dança e fui dançarina, mas quando me tornei mãe tive que largar tudo para cuidar de meus filhos. Mesmo assim você é julgada por ‘só cuidar das crianças’, enquanto o marido sustenta financeiramente a família. Hoje pela primeira vez  deixei meus filhos em casa e, depois de muitos anos, reservei esse momento para cuidar de mim. Certamente serei julgada por ter feito isso. Mas foi muito importante ter vindo, me senti viva novamente!”.

A outra jovem, uma das que mais se destacou durante a aula e nas batalhas de dança que sucederam os primeiros exercícios do treino, estava entusiasmada. Negra, ela conta que chama a atenção pelo cabelo e as roupas que veste, por simplesmente adotar um estilo que faz parte dela e não da cultura do embranquecimento. “Eu sou uma das únicas negras da minha faculdade e que assume essa negritude; sofro olhares de estranhamento, mas não me escondo. Aqui me senti muito livre e fortalecida”.

Esses depoimentos — que não estão transcritos nesta reportagem de maneira literal mas tentam ser o mais fiel possível ao sentido e ao contexto — foram relatados após a oficina de dança urbana do UMA, que aconteceu no SESC Palladium, em Belo Horizonte, em dezembro do ano passado, durante o evento COLABORA, produzido em parceria com o Cidade Lúdica.

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Raquel Cabaneco e Bárbara Almeida, durante a oficina de Hip Hop Dance, do UMA, no SESC Palladium, em Belo Horizonte. Créditos: Beth Freitas

UMA é uma crew feminina de danças urbanas formados por Aline Mathias, Bianca Camila, Raquel Cabaneco, Vanessa Vaz e Bárbara Almeida. O coletivo nasceu no início de 2015, quando Bárbara, estudante de Licenciatura em Dança da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), percebeu que precisava continuar estudando e se desenvolvendo dentro do Hip Hop. Mais que isso: queria trazer à tona a presença das mulheres, que dificilmente eram protagonistas do movimento.

“Dentro da dança na cultura Hip Hop há muitas mulheres, só que raramente elas estão na liderança de um grupo, raramente elas são as coreógrafas, raramente elas tomam iniciativa de algum evento. Tinha como referência a Lola Peroni [professora, dançarina e referência no Hip Hop Dance de BH], que participava de batalhas de dança, mas era difícil ver mais mulheres participarem — elas ficavam somente assistindo”, explica Bárbara.

Com essa discussão, crescia também um questionamento que surgiu dentro da própria faculdade. Composto por uma esmagadora maioria de professores e alunos brancos — muitos com formação em Jazz ou Balé no exterior —, o curso não oferece espaço para aulas com professores da cultura popular, por exemplo. Imagine então se existe  alguma abordagem relacionada ao Hip Hop e à Dança Urbana?

Munida de todos esses questionamentos, Bárbara buscou uma sala livre no Centro de Integração do Atendimento ao Menor (CIAME), do bairro Pindorama, para abrir as discussões e promover treinos gratuitos de dança urbana somente para mulheres. No início, pouca gente participava e muitas vezes ela treinou sozinha, mas persistiu. Foi então que o projeto começou a tomar uma proporção cada vez maior.

Em agosto de 2015, o coletivo foi convidado para participar do Brooklyn Fest, festival que promove a valorização da cultura Hip Hop na capital mineira. Foi naquele momento que elas perceberam a potência e a importância do coletivo. Surgia assim o UMA, que leva como lema a unicidade, a singularidade feminina e também a união entre mulheres — uma por todas e todas por uma!

De lá pra cá, foram tema de várias reportagens e notícias, convidadas para participar em diversos eventos e festivais e até assinaram uma coleção de acessórios da F.Ferreira, formada por uma equipe feminina que trabalha com produção local e tem como principal inspiração o lifestyle urbano. O UMA também ocupou durante todo o ano de 2016 o Centro Cultural UFMG e lá promoveu edições do Treino de Mulheres e da mostra feminina de danças urbanas intitulada “UMA por TODAS”. A partir deste mês de março, a crew começa a ocupar o Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG),  novo espaço destinado para o Treino de Mulheres – para informações de dias e horários, acompanhe a fanpage do UMA.

Oficina de Hip Hop Dance do UMA, no SESC Palladium, durante o evento COLABORA, produzido em parceria com o Cidade Lúdica. Créditos: Beth Freitas
Oficina de Hip Hop Dance do UMA, no SESC Palladium, durante o evento COLABORA, produzido em parceria com o Cidade Lúdica. Créditos: Beth Freitas

Elas também participaram de algumas edições do Palco Hip Hop, iniciativa não-governamental que tornou-se referência para o intercâmbio entre diferentes gerações do Hip Hop. O evento teve sua última edição no SESC Palladium, localizado no centro da capital mineira. “Dificilmente quem é da periferia acessa esse local. O centro é um lugar para trabalhar, fim de semana ninguém pisa aqui. Trazer para cá essas ações é democratizar o acesso a esses espaços públicos”, explica.

Bárbara, que nasceu no Pindorama — bairro localizado na periferia de Belo Horizonte —, circula por vários cantos da cidade e convive com diferentes classes sociais, principalmente na universidade pública onde a maioria dos estudantes é branca e de classe média/alta. Ela sente na pele o que é ser da periferia e frequentar alguns bairros da cidade, principalmente sendo uma mulher negra.

“A cidade é muito fragmentada porque temos esse entendimento de espaços e regiões, e de quem habita essas regiões. No meu caso, o estranhamento que percebo das pessoas, nesses outros ambientes, é em relação ao cabelo e às roupas que usamos.  Na periferia há estranhamento também, porque lá a mulher negra está acostumada com o que a mídia dita, faz alisamento no cabelo, quer se embranquecer. Já ouvi gente falando ‘ainda bem que seu cabelo tá na moda, né?’. Eu nasci em 1994 com esse cabelo, então que moda é essa? Pela resistência do Hip Hop, da mulher e do negro é que a gente se coloca onde estamos, com a roupa que queremos. Somos ‘diferentes’ ao olhar desse outro? Somos! Mas essa diferença não é problema, é nossa identidade.”

* UMA irá realizar um treino aberto de dança urbana no ViraTINA, evento que acontece na Casa de Referência da Mulher Tina Martins, em Belo Horizonte, no dia 11 de março. Veja programação completa clicando aqui.

 

(FOTO DE CAPA: Da esquerda para a direita: Bianca Camila, Raquel Cabaneco e Bárbara Almeida. Créditos: Beth Freitas)

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