Especial

ERRO99, a turma que vende e queima fotografias em praça pública

Meia dúzia de estrelas já alumiava quando perdi a firmeza nas passadas. Era difícil conciliar os efeitos da tradicional cachaça de cravo e canela paratiense com a irregularidade das pedras que formam as ruas do centro histórico. Mas a noite era de festa. O Paraty em Foco, festival internacional de fotografia que acontece anualmente na cidade, é a grande celebração dos que fazem grafias com a luz. Seria um retrato muito triste perder aquela noite de festival por culpa de uma dificuldade de locomoção.

Em um braço, Fernanda – minha companheira – me apoiava. Em outro, Gabriela – a cachaça típica da região – tentava me derrubar: foi no meio desse desequilíbrio gravitacional que acreditei – por alguns instantes, como um ser bíblico –, ter me deparado com o Divino em forma de fogaréu.

Eram labaredas que subiam próximas à santa igreja. Também tinha uma figura mítica com o rosto coberto por panos. Ao me aproximar, o calor do fogo chamou minha sobriedade de volta, como lâmpada chamando mariposas. Em pouco tempo, todo o contexto que tinha construído ruiu. Mas a realidade parecia ainda mais absurda do que as ilusões.

O ser que antes parecia mítico, possuía uma estética black block. Seu torso estava desnudo e a camiseta escondia o rosto. Ele acabara de fazer uma fogueira com uma fotografia do Cláudio Edinger.

Então, fui absolutamente dominado pela euforia. Nada contra o Edinger e a genialidade de sua obra, mas a semiose do fogo consumindo uma obra que custava alguns milhares de reais é o tipo de subversão que não se degusta todo dia. Além disso, no momento da queimação, ninguém sabia quem era o autor da fotografia. O que de fato acontecia naquela noite no centro histórico de Paraty, próximo à santa igreja, era um Queimão Fotográfico.

Uma dinâmica na qual inúmeros fotógrafos – famosos ou não – entregam suas fotografias aos organizadores. No momento que a foto é apresentada ao público, ocorre um leilão em que pode acontecer duas coisas: ou alguém compra a imagem – geralmente envolve um lance inicial de R$ 10 – ou, se a obra não recebe propostas, ela é queimada em praça pública. Só depois de acontecer uma dessas duas opções o nome do autor da imagem é revelado.

Foi nessa noite, nessa praça, diante dessa meia dúzia de estrelas, que comprei, por R$ 30, e pela primeira vez, uma fotografia. Imagem tirada no Vale do Jequitinhonha. Depois o autor veio me explicar todo o cuidado que teve para clicar o momento exato do vento e da luz para conseguir a imagem. Ele também me contou que foi a primeira vez que vendeu uma fotografia. Naquela noite, nós dois e mais algumas dezenas de pessoas entramos no excludente mercado da arte.

Durante o festival, acabei conhecendo os organizadores do Queimão. Trata-se do coletivo belo-horizontino ERRO99.

O black block incendiário se chama Daniel Inglesias e quem cuidou da parte técnica do evento foi o Bruno Figueiredo. Não sei se por afinidades ideológicas ou graças ao magnetismo “mineirin” do coletivo, acabei me dando bem com os rapazes.

Depois da viagem voltei para São Paulo não apenas com uma fotografia para a sala e um estoque de garrafas de Gabriela na bagagem, mas também com uma conexão com o coletivo por meio das redes sociais.

Anos depois, em Belo Horizonte
Os anos se passaram e a vida me trouxe para Belo Horizonte. As lembranças de Paraty me impulsionaram a convidar o ERRO99 para um evento que o Cidade Lúdica realizou no Sesc da capital mineira. O coletivo topou prontamente.

Confesso ter ficado um pouco decepcionado quando os comerciários não nos permitiram fazer fogueiras com fotografias dentro do prédio onde ocorreria o evento. Mas engenhosamente os meninos do ERRO nos propuseram atividades alternativas igualmente relevantes.

Como, por exemplo, um Duelo de Rimagens, uma atividade na qual artistas apresentam suas fotos em um telão e MCs duelam com versos improvisados baseados na imagem.

Acabamos optando por duas atividades: uma oficina de memes – regada a cervejas e que durou dois dias – e o e Show de Likes. Este, tão subversivo quanto o queimão: um duelo de ensaios fotográficos que aceita qualquer participante.

Tudo em formato de mata-mata. Quem decide qual ensaio fotográfico passa de fase ou não é simplesmente e somente o voto popular.  Mais uma vez atropelando toda a lógica curatorial do mercado de arte. Que coragem.

Durante os dias que o coletivo realizou suas atividades no evento, passei as noites bebericando pela boêmia da cidade junto ao Daniel e o Bruno. Passamos pelo bairro de Santa Tereza e também pelo Edifício Maletta.

Entre um gole e outro o Bruno divagou sobre o Queimão. “O Paraty em Foco organizou seus próprios leilões fotográficos até o ano de 2007. Era super elitizado, algo proibitivo, com ar-condicionado gelado, lance inicial de R$ 1000. Quando chegamos ao evento com o Queimão Fotográfico invertemos essa lógica”, conta. Bruno diz que, graças à atividade, muita gente vendeu e comprou foto como nunca tinha feito antes.

Ele me apresentou detalhes de toda a pirotecnia do show. Contou de edições do Queimão que foram feitas para levantar verba para outros coletivos. Como a vez em que fizeram “a Queimona” Fotográfica, para ajudar a Casa de Referência da Mulher Tina Martins. Ou o Queimão das Estrelas para dar uma força ao Espaço Comum Luiz Estrela.

O Queimão já contou com obras vindas de fotógrafos de renome, como Gui Mohallen, João Castilho e Cia de Foto. As imagens – como todas as outras – foram vendidas ou queimadas de forma anônima.

Foi em uma mesa em Santa Tereza que Daniel, membro ariano e mais expansivo que seu companheiro pisciano, cravou um termo famoso em Belo Horizonte, mas que eu ainda não tinha escutado. “A Esquerda Festiva”.

Ele me mostrou que o ERRO nasceu das íntimas ligações do coletivo com o movimento da Praia da Estação, com ocupações de espaço público, duelos de MCs e, claro, com o Carnaval. Cantarolava detalhes de blocos mineiros como o Mama na Vaca, Unidos do Barro Preto e Chama o Síndico.

Antigamente, Bruno e Daniel trabalharam juntos no jornal O Tempo. Foram se descobrindo com suas passagens por coletivos como o Andorinhas – que registrava, inclusive, o Duelo de MCs –, o UaiFone – que discutia, junto com editores de jornais renomados, o uso do celular para a fotografia em uma época que isso ainda era uma discussão – e a Casinha – que promove cultura independente.

Certa vez, com o coletivo Andorinhas, nas eleições de 2010, eles surrupiaram cavaletes com propagandas políticas pela cidade e por meio de uma série de artistas fizeram intervenções nessas estruturas. Uma bela manhã decidiram colocar as obras em uma praça com a foto dos políticos artisticamente alteradas, como podemos ver aqui.

Durante meus dias em Belo Horizonte, aprendi muito sobre boêmia e colaborativismo. Acredito que conhecer o ERRO foi meu maior acerto. Entendi como o humor e as artes visuais podem circular tanto em festas quanto em lutas seríssimas.

De certa forma, a caminhada que comecei de jeito torto em Paraty fez parte de um caminho onde acabei caindo no baile da vida da Esquerda Festiva. E é gostoso bailar e subverter lógicas enquanto se produz fogaréus em uma vida tão carente de labaredas.

erro99

Foto: ERRO99

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